Eu quero o pano de chão que estava aqui. Onde está o pano de
chão que deixei aqui? Eu comprei dois e um estava bem aqui. É este um que eu quero. Você não precisa
refletir muito para compreender que eu
quero o pano de chão que deixei aqui. Se deixei aqui, ele devia estar aqui.
Constantemente presente. Com sua razão de ser. Eu não quero o pano. Eu não quero o chão. Quero
o pano de chão. Uma síntese indissolúvel. Não são palavras criadas por mim. São
um objeto. Que está faltando. Isso significa uma espera. Eu espero o pano de
chão que estava aqui num outro momento e neste exato não está mais. E quanto
mais espero mais a minha mão pesa na caneta. A ausência é sentida e pesada. O
mundo dos meus objetos não é mais o mesmo. Falta um ponto no mapa. Ou um traço. Falta um lago, uma ruazinha, uma cidade. E se
falta, há um buraco. Alguém pode cair nele. Eu poderia dar pela falta de uma
árvore, um poste. Um cacho de uva. Uma emoção antiga dita de uma maneira nova. Mas
é do pano de chão o rosto na gravura. No primeiro momento de descuido esse
rosto disfarçará a voz e não parecerá mais o que é. Isso é o mais longe que ele poderá ir. Quanto mais dou por sua falta, mais jogo o
resto que me cerca fora. E por jogar o
resto fora, ele se agiganta. Calcule por
hectare. E ele só começou com uma frase.
Eu quero o pano de chão que estava aqui foi onde tudo começou e agora não
consigo alcançá-lo. A distância só faz aumentar, o que é um perigo. Se é um
perigo, posso querer negar. Não, o pano
de chão não estava aqui. Você tem
certeza de que estava aqui? Tem certeza
de que você tinha um pano de chão? Quem
se importa com o teu pano de chão? De
que serve? Mas eu não preciso me
explicar com uma palavra, muito menos com três. Muito menos negar. Negar é fugir. Agora eu posso entender o que
é uma emoção. Eu quero verdadeiramente o pano de chão que estava aqui. Arrumo minhas urgências na ordem que eu
quero. Dentro do sol quente da manhã.
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