26.6.20

Benjamin






Chegou se arrastando. As mãos borradas de sangue segurando a náusea e o buraco na carne. Feriu-se onde? É o pior livro que escrevi na vida. O que vou fazer com esse homem na página em branco à minha frente? Ele veio pela rua num carro acelerado. Preciso dizer o nome da rua. A marca do carro. Nome, idade, peso e altura do homem dentro do carro. Preciso defini-lo. Situá-lo no mundo. Leitor gosta disso. Não pensa por si só com uma frase apenas. Não cria nada. Este papel é meu. Não posso ser telegráfico. Elipses o enervam. Preciso esmiuçar tudo. Conversar com ele enquanto escrevo para ele não se sentir sozinho, enquanto o infeliz do personagem se esvai pelo ferimento apertando a barriga até eu acabar sua história. Ele matou alguém? Sim, matou. Você já começa a se animar na poltrona. Pega um copo de vinho. Não quer ler mais um livro para pegar no sono. Foram tantos ultimamente. Pagou 49 contos neste, vai ter de valer a pena. Precisa esquecer a merda da sua vida nestas 298 páginas que esse filho da puta escreveu. Espera aí. Parece que ele está me ofendendo aqui. A merda da minha vida? Não acredito. Volte ao seu personagem. Não sabe o que fazer com ele, caralho? Já não disse a marca do carro. O nome da rua. Da cidade. Ele chegou de onde, vai para onde? Está nas últimas, isso eu já sei. Vai ter flashback, na certa. O que levou o pobre coitado a essa situação? Ele poderia ser qualquer um de nós. Seu desgraçado, isso é o que vai acontecer com você se não continuar escrevendo este livro. O pior da sua carreira de vinte anos, já estou vendo tudo. Prossigamos. Eu não tenho a menor ideia do que fazer... do que fazer em seguida. Vou achar um nome para esse cretino. O nome de um leitor babaca qualquer dos meus livros. Como aquele que vai a todas as minhas noites de autógrafos há vinte anos. Benjamin. Com N no final, o escroto sempre dizia. Meu fã. Benjamin chegou se arrastando... O incompetente ainda xinga os leitores, meu Deus. Deve estar se divertindo com os 49 contos de cada um deles, descontados os da editora. Ah ah ah ah, vai precisar de milhares de leitores para poder comprar um vinho de excelente safra como o que estou bebendo agora, enrolão. Quer que eu faça a história pra você? Pois bem, Benjamin com N sou eu. Jurei a mim mesmo que este seria o último livro seu que eu leria. Estou cansado dos seus enredos medíocres, seu automatismo, suas pre-po-si-ções. Mas resolvi ir no seu lançamento mesmo assim. Aquela fila enorme de otários esperando o seu autógrafo. Quando chegou a minha vez, você saiu da mesa e foi conversar com seus amigos, me deixando ali de pé encurralado com o livro aberto no ar. Esperei por uma hora. Eu sou só um leitor. Me aproximei de você na roda de cretinos e me humilhei mais uma vez. Pedi o caralho do seu autógrafo. Você não deu. Disse que já estava indo embora e me deu as costas. E a minha Remington calibre 45 pulou do bolso do casaco e cantou quatro vezes nas suas costelas. O segurança da maldita livraria atirou de volta. Eu comecei a correr e entrei no meu Dodge Charger vermelho 2011, cupê, motor V6, sétima geração. Ouviu bem? Esta é a marca do carro. Acelerei pela Rush Street, não preciso dizer a cidade, é a melhor Rush Street do planeta. Quem não conhece é burro geográfico. Como você. Ah, e a bala do segurança só me fez cócegas. Não tive náusea nenhuma. Isso é da sua cabeça doente, amanuense de melodramas. Vejo que você se recuperou bem afinal, a tempo de concluir a bosta do seu livro que tenho agora em minhas mãos borradas de um sublime Henry Jayer de 1974. Fracassado. Mastiga um limão.