21.2.24

13.2.24

3.2.24

Medo

25.1.24

23.1.24

16.1.24

A poesia de Dora Vasconcellos

 


Guardei teu murmúrio em mim

         As palavras mortas nas cartas
         Guardei das montanhas o poder

         A transparência do tempo
         Plantei a violeta no silêncio
         Dos meus olhos

         Guardei a eternidade da súplica
         A tristeza do refrão
         Guardei a tarde na areia

         Sobrevivi à palavra dolorida
         À narrativa sem enredo
         À fábula sem desenhos

         Perdi tuas ausências
         Meu hábito de olhar de longe
         A própria vontade de ter

         Perdi as curvas do crepúsculo
         O outro lado da ponte
         Os minutos rio abaixo

         Perdi a resistência
         Do guerreiro
         Perdi a hora do vento

         Ao te perder
         Voltei a mim lentamente
         Todas as lembranças
         São companheiras do tempo.

*

Dora Vasconcellos, "I have treasured your murmur". Poeta e diplomata, Dora foi letrista de Heitor Villa-Lobos. Três livros publicados. (Trad. Maira Parula)



15.1.24

Hope Piece

 

Imagine there's no heaven.

Imagine there's no countries.

Imagine no possessions.

Imagine all the people.

Dig a hole in your garden to put them in.



(On Lennon's Imagine & Ono's Cloud Piece)



A nighttime with poets

 


11.1.24

Annie Ernaux


Senti uma violenta vontade de cagar. Corri até o banheiro, 
do outro lado do corredor, e me agachei na privada, de frente para a porta. Eu podia ver o piso de ladrilhos entre minhas coxas. Empurrei com todas as minhas forças. Aquilo disparou como uma granada, num jato de água que espargiu até a porta. Vi um pequeno banhista pender de meu sexo na ponta de um cordão vermelho. Nunca imaginei ter aquilo dentro de mim. Eu teria que andar com ele até o meu quarto. Peguei-o com a mão — era estranhamente pesado — e avancei pelo corredor apertando-o entre as coxas. Eu era uma besta-fera.


Annie Ernaux em L’événement, 2000. (Trad. Maira Parula)



2.1.24

They Like Delicate Poetry



 

They like Delicate Poetry.

Only Delicate Poetry. 

Almost a delicacy. 

An urinary hesitancy.

And they expect that from a poetess. 

Always the Poetess.

Who are "They"?

Who erected such Byzántioi?

Who cooks the remains for the losers?

Shush

I have a novelty for itch of you:

our Poetess is right here 

waiting for yous.

I am two

inside her bawdy.

And She is not jubilant.

Now,

all you got to do is come down 

twenty-five steps then turn left. 

Maybe I'm on the right side. Wrong. Mute. 

Maybe this basement is silent too. 

Certainly much more gloomy than deep dark. 

Facilis descensus Averno.

Be care 

if I care. 

Otherwise how could Poetess grab them. 

Who are "Them" anyway 

men? 

women? 

somefang?

odder delicate poets?

the Gilga meshes? 

dronedaries? 

Donald Ducks?

AI psychos?

otakus? 

C'mon 

this shit is getting me weeeeary 

my Kershaw jaws quiver 

bleeding all over the cold floor 

the Great Rome of triumphal aches. 

You may slip in Poetess' blob blob blood 

and I wont forget that Ever. 

Maybe I'm right beyond my drawl wrongness after all.

See? 

I havent finished off the poem yet. 

Now you have to descend filthy-two steps. 

The longer you take, the more I write. 

Oh, not me, no. 

The up-and-coming poetess inside my clenched hands. 

Would you save her? 

Or me, 

her Pthree-sixty-five,

her petrified cotton-head,

the Great Bert All Brushed.

Course not. 

I know From. 

Beginning told me:

There is a time to predate spoken language.

There is a time to cannibalize written language. 

O lord, now I can sniff out 

the First You coming right twart me.

I can hear. 

Here now at last.

Young, large and fresh. Mesopotamian.

Anticathartic.

The blade stops quivering, my ladies daddies.

Every line a victory.

Every cut a Thebes.

Applause, paws!

Poem is ready.



30.12.23

I Will Tarantine You

 

Oh well, New Year is at my door


with boots made for kickin’ me, for sure


but I just found a brand new box of matches, yeah


to tarantine everything out of it for a while

23.12.23

1 poema de Raymond Carver


É agosto e faz seis meses

que não leio um livro,

exceto um tal de A retirada de Moscou

de Caulaincourt.

Mesmo assim, estou feliz

andando de carro com meu irmão

e bebendo uns tragos de Old Crow.

Não temos nenhum lugar em mente para ir,

apenas seguimos em frente.

Se eu fechasse os olhos por um minuto,

estaria perdido, se bem que

eu me deitaria com prazer e dormiria para sempre

na beira desta estrada.

Meu irmão me cutuca. 

A qualquer momento, algo vai acontecer.


Raymond Carver, do original "Drinking While Driving". (Tradução Maira Parula)



29.11.23

22.11.23

Neblina


Vergonha do corpo em que nasci

Vergonha do corpo em que fui

Vergonha do corpo em que sou

Do cadáver que serei

o que disse e não disse dirá

o que fiz não fez fará

entre neblinas 

onde rastejo

dentro do teu livro.



18.11.23

Vitamina dos dias



leite podre

banana podre

odre podre

víscera podre

pessoa podre

urbe podre

orbe podre

e ainda vos digo mais

O deboche é a minha única salvação

Viva Waly Salomão! —

de quem espedi-me e beygelhy a maao

seria eu acatada pela Escrita Breyner do Famalicão?




16.11.23

Latitude 69°05′S, 51°30′W


Abandono os livros. Sou abandonada por eles.

O que vem primeiro não sei.

Sons.

Acontece com gente também.

Palavras.

Você ouve o adeus quando já está lá na Antártida desde o princípio.

Fóssil espalhado entre as pedras.



10.11.23

6.11.23

Allegro insopportabile

 

18:35 é a mais bela cor de Veneza. Nem um minuto a mais, nem um minuto a menos para contemplar aquele irreprodutível azul. 

18:38 um fulminante vaporetto bêbado divide nossa gôndola ao meio. 

18:42 irrespirantes, escalamos a arquitetura palazzina feito ratos. 

22:13 ao naufragar no poema-canal, eu cogitaria todo um novo mundo de formas:  Basta um só verso-rebocador belíssimo para empurrar outros vinte paquidermes.

9:10 à janela da chambre venitiènne penso alto, Não sei por que falam tão mal das águas fétidas de Veneza se deviam elas também ser patrimônio da humanidade por abrigarem no fundo de um lodaçal ticiano as bactérias descendentes da microbiota intestinal de Vivaldi. A ruminar um tiramisù, você não dá ouvidos a minhas considerações sentimentais. Vou tomar meu décimo banho e coloco La caccia para ouvirmos.



Salvatore Quasimodo


Todos estão sozinhos no coração da terra,

apunhalados por um raio de sol:

e de repente a noite.

Salvatore Quasimodo, "Ed è subito sera". (Trad. Maira)

16.10.23

Áte

 

Áte


A humanidade e suas hediondas ninharias.

O que não me impede de seguir a rua e abraçar louise glock na bolsa.

Sugeri a Casimiro que retirasse a crase daquela tarde

À sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais!

Ofendeu-se.

Saí do trabalho às três da manhã. Esgotada.

Resgate de corpos não tem hora para acabar.

Romper com o meu aidós era a única coisa que eu poderia fazer para salvar-me.

A exclusiva Rubbing House de Madame Haydée ainda estava aberta.

Como combinado, Madame agendou para mim o maior clitóris do seu coro.

Eu estava faminta. Trêmula de morte.

Sem muita demora, engoli e engolida fui até o dia clarear.

A Obcecação acolheu-me inteira em sua rede.

Aliviada, fui embora com um gosto de framboesa na fúria dolorida.

Mal podia caminhar.

Lá fora, o odor de putrefação era um lótus intocado.



13.10.23

Louise Glück





Sereia


Virei criminosa no dia em que me apaixonei.

Antes disso eu era garçonete.

Eu não queria ir para Chicago com você. Eu queria me casar com você, queria que tua mulher sofresse. Queria que a vida dela fosse uma comédia Em que todos os personagens são tristes. Será que uma pessoa boa Pensa desse jeito? Eu mereço Crédito pela minha coragem —
Sentei-me no escuro da tua varanda. Tudo estava claro para mim: Se tua mulher não te deixasse partir Isso provava que ela não te amava. Se te amasse Não iria querer que fosses feliz?

Acho que agora Se eu sentisse menos poderia ser uma pessoa melhor. Eu fui Uma boa garçonete. Conseguia equilibrar oito drinques. Eu costumava te contar meus sonhos. Ontem à noite vi uma mulher sentada num ônibus escuro
No sonho ela chora, o ônibus está indo embora. Ela acena com a mão; com a outra acaricia Uma caixa de ovos cheia de bebês. O sonho não resgata a donzela.


(trad. Maira Parula, "Siren")