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Postagens

Não deixa eu saber

Não deixa eu saber que existes e estás atrás de mim por onde quer que eu vá. Tenho poucas lembranças mas em uma delas tu te acoitas. Com teu vocabulário certeiro, teu raciocínio coeso, tua fome de saber e o apelido miserável que me destes e não ouso repetir porque te seria pior. Não houve revolução e tu és avó. Eu sabia que havia alguma falha em teus ideais. A Nova Ordem é ordem. O Novo Mundo é mundo. O Novo Tempo é tempo. Ando pelas ruas a olhar para trás. Não deixa eu te localizar nas sombras do meu medo. Não faze de ti um alvo. Eu sabia atirar melhor e sabes disso. Eu sabia escrever melhor, conversas me nauseavam. Não deixa eu fazer de ti o meu último panfleto. Quando eu olhar a tua cara no visor, reza para eu não lembrar do apelido que me destes. Para não lembrar do teu amor.


Postagens recentes

Incognita

Não acreditaram quando eu disse que não era sua mãe. Os três empalideceram ao ouvirem minha voz. Não acreditaram nas minhas juras, nos meus documentos, nos repetidos exames de DNA. Queriam a mãe de volta mesmo que na réplica de uma completa estranha. Eu. Nas fotografias e quadros espalhados pela casa dos três irmãos, uma mulher venerada. Na sala de estar, na sala de jantar, no salão de música, nos nichos entre um cômodo e outro, na capela da fazenda. Diziam a quem aparecesse que eu era a mãe em meus menores gestos. Na caligrafia, nos fios de cabelo fora da ordem. Não querendo constranger-me no papel, queriam que eu me sentisse livre para movimentar-me, falar e agir no meu natural, que quanto mais espontânea, quanto mais eu mesma, mais eu era a outra. Após meses de insistência, por-favores e no final súplicas, ficaram felizes quando me viram enfim instalada e habitando o quarto da mãe, nas ensolaradas terras da família. Permitiram que eu continuasse trabalhando em meu ofício, vestindo …

[houve um tempo]

Houve um tempo em que eu misturava sexo com manga rosa e gozava só de acender. Houve um tempo em que eu me apaixonava bastava um gesto e a moto fazia 120 por hora. Houve um tempo em que eu lia Shakespeare, ouvia Kid Abelha com Black Sabbath e ninguém tinha nada com isso. Houve um tempo em que eu tinha medo das drogas porque me disseram que Hendrix e Joplin morreram disso. Houve um tempo em que eu tentei mudar a sociedade com uma metralhadora mas queria chegar em casa cedo. Houve um tempo em que eu percebi que podia trocar a arma pela palavra mas a luta já havia acabado. Houve um tempo em que eu colocava no piloto automático Guevara, Pessoa, Drummond, Baudelaire, Artaud, Glauber, Torquato, Oswald, Nietzsche, Foucault, Maiakovski, Kerouac, Lautréamont, Camus, Poe, Lawrence, Virginia Woolf, Borges, Ionesco, Bukowski, os amigos mais loucos e os cortes de cabelo mais estranhos. Houve um tempo em que eu só era fotografada com um copo na mão e o mundo girava na minha cabeça sem claustrofobia…

[escrever é um autoflagelo]

poemas inflados de gás são para dias de espetáculo escrever é um autoflagelo amputar-se na trincheira do indizível anular o ego para desbloquear a percepção – carroça sem cavalos – cozinhar  limpar  remendar notas  desenhos  partituras extrair uma bala do tamanho do Mississippi deixar passar o macabro comboio de bandeiras guardar laranjas e caramelos aceitar palavras que não casam – vivem juntas tirar-lhes um retrato e pôr no papel o cérebro – alto-mar – enfim se esvazia mas nunca as envia metade de uma parte entre chapas de identificação do peito





Matamos Poetas

Ninguém me acha aqui. Quando helicópteros passam no céu Nem preciso baixar a cabeça. Ninguém me acha aqui. Janelas e portas fechadas Cinco cães de guarda me envolvem. Cinco punhais de aço. Ninguém me acha aqui. Telefone fora da parede. Música ligada. 

Escondida na própria pele. Não ouço a ninguém. E no entanto o oxigênio circula minhas palavras. Toda crítica literária é bullying.




Lyra

Ele tentou a porta de tela e a maçaneta abriu-se docemente em sua mão. Todas as outras entradas da casa estavam trancadas. Lyra marcara 15 horas. No seu relógio 14:55, no da cozinha 14:52. Gritou chamando Lyra, uma, duas, três vezes Lyra. Ninguém, nem mais de ninguém. Sentou no sofá da sala e esperou. Iam ao dentista. Às 16, consulta marcada. Extração de siso. Enfiou o dedo na boca e futucou os dois da esquerda, os dois da direita. Não doeu. Quando não dói é porque está doente, ou o contrário. Ele não lembrava mais. Então devia ser grave, seus quatro sisos não doíam. Lyra devia estar doente, sim, era ela. Os sisos de Lyra. O pai só chegaria às 8. Bêbado. Tinha de tirá-la da casa antes disso. Lyra pensava que ia levá-lo ao dentista, mas ele é que iria salvá-la. Ele sorriu por isso, olhando para os tênis. Contou os furos por onde entravam os cadarços. Toda casa tem um furo por onde ele entra. Maiores ou menores. Levantou e foi ao banheiro. Onde ficava. Guiou-se pelo faro, entrou e tranc…

whatever

yes yes





O Texas vive

Obrigada, Mr. André de Leones, pelo seu carinho sempre presente. 
Você sabe que até me esqueço dessas coisas que escrevi, ahaha.
Mas acho que o sonho foi real sim. Credo.
Grande beijo.





Meu filho único ainda vive

O site da Woo!Magazine fez uma simpática resenha do meu livro recentemente. Em julho de 2017.  Uma surpresa!  Afinal já se passaram 11 anos desde o lançamento.  Fiquei contenta, claro.  Sinal de que minha criança ainda mexe as mãozinhas empoeiradas. Seu coração bate baixinho e alguém ouve.  Agradeço à professora Kinha Fonteneles por sua leitura, suas palavras gentis.  E por descobrir minha agulha no meio de um infindo agulhal. Obrigada ao site. 










Geração Marginal

Na rua Toneleros
poetas jogavam-se do alto dos prédios
ali perto
sentada num balanço de jardim enferrujado
eu via cantar nos terraços
o galo branco de um porteiro









Entrenervo

não saio de casa para não pegar vírus, vermes, um caminhão desabalado, conversas pela metade, células parasitas, pedras e moedas no chão, febres, vertigens, tremores, você conversando com o guarda, o sapateiro, o açougueiro, rindo com a verdureira, postando uma carta, tomando coca-cola com iPhone, não saio de casa para não pegar todo chocolate, todo livro, todo sol das prateleiras, o próximo ônibus para a Praia dos Anjos, o cinema das dez, o som da música dos apartamentos, dos pombos, das registradoras dos supermercados, do giro completo das roupas nas lavanderias, dos pães crepitando nos fornos, do garoto vendendo aipim, da máscara e do rosto, do véu de Maya, do olho por olho, de bocas pítias assobiando, espirrando, cuspindo, carpindo, de lenços raspando lágrimas, suores, almas, das bancas abrindo, dos jornais que queimam já pela manhã, dos trens enterrados vivos, dos pneus fraturando latas, presunções, a garrafa de Klein, o cigarro que joguei, o som dos estalos da história, da barca…

Body Art

De 7 às 7

sem luvas sensoriais

põe a roupa-corpo-roupa na máquina

varre todo o espaço pictórico

lava privadas e objetos relacionais

esfrega superfícies moduladas

sobe e desce vazios escadas casulos

secando a baba antropofágica da patroa

ouvindo Creedence Clearwater Revival

dentro e fora numa fita de Moebius








Refúgio

A maioria das pessoas, 80 por cento delas, que procuram um "refúgio" na natureza trazem um inferno nas costas. Não se engane quando lhe dizem ou aos jornais que prezam o sossego. Por não saberem mais o que é o silêncio, conversam aos gritos, acendem todas as luzes, ligam todos os eletrônicos da casa assim que chegam, soltam fogos, dão festas todos os fins de semana, churrascos até de madrugada e embebedam-se sem parar. É invariável. Não há tédio nesta programação repetitiva. O tédio para elas é o silêncio. O medo do silêncio. O medo do escuro.  No silêncio da natureza, você escuta todos os sons, o do seu coração, o dos seus intestinos, dos ouvidos, dos ossos, das vozes na sua cabeça, dos seus pensamentos. Não só o da fauna e da flora. O som da escuridão. Da sua escuridão. Você presta atenção em cada detalhe. Não há ruído para dispersões, não há ruído na comunicação. A pessoa que está ao seu lado, se houver, está inteira, clara, nítida. Não há escape. Terá de ver como tudo é.…

Um povo que troca a carabina por ovo não pode ser levado a sério

Gradus Primus


Puella cantat. Magistra edŭcat. Aquĭla volat. Rana saltat. Agricŏla laborat.
Poëta recĭtat.






pleasures

pleasures 
how lose much from co
omething to love an
kind I respe
e not calculated t
and consequently
unhappy situation
ide in a mother
her moans and inarticu
th a mournfoul smile
followed these words












Benassal

sentada no banquinho giratório, 
belisco as teclas de um piano para billie cantar. 
estamos na sede de um clube em benassal. 
ela canta baixinho you go to my head. 
no prédio bombardeado 
restam o piano e nós,
as bolhas avelãs de uma taça de champanhe.  











apontamentos à margem

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eu achava que usando óculos espelhados
as pessoas iam parar de me olhar 
que bipolar
como gostam de se admirar


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se barbantes ainda amarrassem livros, eu te esganaria


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enfiar na mochila
um livro
uns trapos
quatro cartelas de xanax
por cima, la beretta


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ando sentindo uma fragrância de patchuli pela casa em horas inusitadas, 
um espírito hippie deve estar tentando se comunicar comigo

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conclusão da manhã. hilda hilst era tarada. já pedi à casa do sol uma folha caída da lendária figueira. eles concordaram e vão mandar um pouquinho da terra também
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Não entendo pessoas que saem do consultório do psicanalista 
gargalhando e tagarelando (entre elas, não sozinhas) como se estivessem no shopping. 
No meu tempo, os neuróticos eram circunspectos e sorumbáticos. Enfim...

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Um povo que troca a carabina por ovo não pode ser levado a sério. 




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Gosto de leilões de arte e antiguidades. Costumava haver nesta cidade.  O scotch era liberado: bêbado o público, a carteira afrouxa.  Eu só arrematava tranqueira.  Uma bengala para o …

o caminhão

O amigo chega por trás, curva-se e abraça o poeta. O poeta sentado. Lentes embaçadas, ele abaixa a cabeça, o abraço era uma gravata. O braço direito do amigo aperta seu pescoço. O poeta se rende. Nada faz além de proteger a garganta com o queixo. A velha garrafa de Antarctica espera e esquenta. Três copos sujos vazios na mesa. Guardanapos, um bloco comanda para anotações ao lado direito do poeta. Daqui não podemos ouvir o que o amigo diz no seu ouvido. Há um rastro de sorriso nos lábios do esganado. Uma garrafa de vodca evaporada. Não nos deixam ver o rótulo. O que o poeta faz com a mão encoberta pelo vidro. E o que vejo como sombra é líquido derramado. Eles não se parecem. Se eu estivesse no poeta, não pensaria no abraço, no amigo, naquele afeto noturno e confessional, pensaria nas garrafas tão secas, quanto tempo demoraria livrar-me daquele humano calor nas costas que me imobiliza. O suéter de lã que envolve os ombros do amigo pinica meu rosto e o que passa por perto. O poeta não se…

Et vous

Ele sentou ao meu lado no balcão: "Sou amante da pintura, de ler em francês, de Dastaiévski, Pushkin e Pasternak, adoro música clássica, todos os gêneros, leio Cortázar, Llosa e Neruda. Et vous?" "Isso tudo é pra eu comer o seu cu?"









Does

Does







limo

O teu cão me espera na capela essas pedras cobertas de limo o sol de inox em tua mão cega-me quando entro & toda névoa explode 

num beijo linfa  doce