23.2.18

Caderno de alumna





mp  1980s






20.2.18

Jurandy me deixou aqui pensando




Jurandy me deixou aqui pensando. 
Foi buscar um côco. 
A areia pinica minha bunda. 
Jurandy gosta de praia deserta. 
Pra mim tanto faz. 
Ele diz que gente demais mancha o mapa. 
Jurandy fala bonito. 
No princípio eu assustava. 
Agora acostumei. 
Deixo ele falando sozinho. 
Como um rádio. 
Enquanto ele fala eu penso. 
Falo comigo coisas que Jurandy não ouve. 
Porque se ouvisse não ia me beijar com tanto gosto. 
O mar me deixa triste. 
Triste mesmo. 
E tristeza é coisa de vício. 
Não dá pra controlar. 
Se eu entrasse na água agora, Jurandy nem ia ver. 
O que a gente não vê não dói. 
Não tem do que lembrar. 
Lembrar que eu fui bem pra longe, 
mas tão longe que ele nunca conseguiu me alcançar.






11.2.18

fan-fiction





Bukowski comemorando seu aniversário com Sartre de costas e Godard, aqui “deglassé” e encoberto pela cabeça être et néant do pequeno Poulou. Ao fundo, Hirohito divide uma tradicional cerveja Yuengling com Al Capone. Na mesa, um maço de JPS que o poeta não fuma, outra sua preferência. Anna Karina retoca-se no toilette. Beauvoir é a sombra no braço direito de Chinaski, que a escuta pensativo pelo reflexo numa taça de Dancing Bull Blanc. A fotografia foi tirada pela cadeira vazia. Baja California, século XX.







8.2.18

Quando nossos ídolos voltarem a andar



A terra sob nossos pés é o acúmulo de corpos deitados uns sobre os outros através dos tempos. A litosfera, pastosa ou rochosa, é cheia deles e aumenta com o passar dos milênios. Mesmo que nenhum humano nasça mais, ou a população total do planeta seja exterminada em fumarolas, é dali que sairão outros seres agora adormecidos, embriões erosivos, latentes como bactérias. Da litosfera viva. Seres salinizados e compostos de químicos tóxicos, ressurrectos do descarte de lixo nuclear pela incidência do calor antropogênico, pela alteração máxima do albedo, pelo movimento agônico das placas em rebote. Seres nitratizados do lodo deslizante dos esgotos. Lixiviados. Seres solo. Corpos crosta. Intemperistas. Alma toda cálcio e sedimento. Os sublimados tectônicos.











2.2.18

Senha de pacto suicida (esparsos)





Folhas paradas

vento subterrâneo
o coração acelera
apago o cigarro
no café na pia
quatro encapuzados
entram na cela
glocks em punho
dezesseis cápsulas no total
não sei por que as balaclavas
saem da cela
náusea e torpor
ergo o corpo do chão
para ver onde sangra
mas são folhas paradas



Você me ama?
Não sei. Vou perguntar ao meu advogado.



Tem abacate. Tem coturnos.
Eu não como coturnos.
Então coma abacates.
"Inseto-que-dorme-no-coração-da-rosa." Você que escreveu essa merda?
O abacate tá bom?
O sujeito coube em três valises.
Ele devia ter ficado quietinho.


Senha de pacto suicida

-- Estes são os últimos cachorros que criamos.




Abro um furo no pároco

derramo toda vinhaça de seu ventre
em duas lascas secas de pão.

Faço isso por meus pais

que estão muito velhos
e famintos.




Pústula
É febre
Uma malária
Um amigo na portaria
Uma delinquência juvenil





as costas suadas do capô
a morte contente de blanchot
os bancos vazios no meio-fio 
não vai ter tempo de lavar



Qualquer dia desses

suéter amarelo
e aquelas coxas sartórias
pulsando meia-noite
não sabe se voltam



Escreveu um longo poema

todo lapidado por um método
cheio de referências mitológicas
imagens dessacralizadoras delirantes
erupções confessionais em estado bruto
Depois de uma leitura final
rasgou-o em pedaços e gritou
Saí do cagueiro apressada 
e encontrei-a sorrindo
brindamos com um sherry




Resistência


"Temos que ir pras ruas. Pras ruas."

O povo parece esperar que digam quais.




¿Ya te diste cuenta que no tengo trabajo?
(I'm used to telling the truth on Coahuilla winter nights.)



Café da manhã


Não quero dormir abraçada com você neste calor. Você é muito quente.

Durma comigo depois de morta então.
Credo, aí não é mais você.
É sim. Enquanto houver um último pedacinho meu apodrecendo, sou eu. 





Nas Mãos de Deus


O caminhão ralentava.

Fiquei olhando a frase e tomei na cara
um bafo espesso de monóxido de carbono.



Hospital Urbi et Orbi



Bruxelas


Os fundos de um hotel em Bruxelas.

A foto do prédio me atrai e angustia.
Paredes sujas. 
Prédio velho.
Lembranças antigas de mulheres se jogando
sem eu saber por quê.
Hoje talvez eu saiba.
Entre um andar e outro. 




Kombi


A mãe tinha uma Kombi. Carro de trabalho.

Segurança zero, mas que delícia andar nela.
A mãe transportava gringos para passear.
O namorado dirigia.
O último amor da sua vida.
A Kombi acabou também. 




Quem é você?

Você é morta?
Eu só leio e sigo gente morta.
Ah, então pode entrar, a casa é sua.
Só não pega o meu remédio na mesa.
Você vai ver.  Fica na minha frente.
Passo o dia na mesa. Não tem como errar.
Mortos tomam éter 
éter 
amateur.




As pulgas saltam.
O percevejo nada.
E alguns besouros hibernam.
O tomate tem licopeno.
O melão tem potássio.
E as bananas têm silício.
A Casa Branca tem seu Steinway.
O mercado tem sua mão invisível.
E o WTC tem seu Bin Laden.
Homens só não são falastrões quando nada têm a pedir.
Escritores colocam palavras demais onde faltam ideias.
E provavelmente meu bisavô morreu sifilítico.



Udigrudi nacional


broderagem poética de panelas

sisteragem poética de burguesas




Ocha wo nigosu

água quente não é chá





I will ze Zack