25.9.09

haicai da terceira idade


hashis entrecruzados
um último fio de cabelo
cai na sopa de missô



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Laboratório de criação literária


Nossa proposta de trabalho tem como foco principal transformações químicas da estrutura do a-Bisabolol com finalidade de potencializar e/ou expandir suas atividades biológicas e aplicações também na indústria do texto literário. O α-Bisabolol, conhecido como levomenol, é um óleo viscoso incolor de aroma agradável, odor floral e baixa toxicidade (LD50 em animais=13-14 g/kg). É praticamente insolúvel em água e glicerina, e solúvel em etanol. Ocorre na natureza nas formas enantioméricas (+) e (-), sendo o enantiomêro (-) o de maior abundância. (-)-a-Bisabolol é um composto natural com estrutura de um álcool sesquiterpênico monocíclico, no Brasil é extraído da madeira da candeia. O óleo de candeia tem aproximadamente 85% de α-Bisabolol, portanto uma concentração elevada para produto natural. Destilando-se o óleo de candeia obtém α-Bisabolol com pureza mínima de 95%. O interesse no α-Bisabolol se deve a suas atividades biológicas comprovadas, bem como a sua disponibilidade e facilidade de extração. Em função da sua baixa toxicidade e de suas propriedades conhecidas como anti-irritante, anti-inflamatório, protetor gástrico, analgésica, antibiótica e antimicrobiana, é muito usado em cosméticos como loção pós-barba, loções para o corpo, desodorantes, batons, protetores solares, cremes para as mãos entre outros. Recentes estudos indicam que o a-Bisabolol é um inibidor para o glioma (tumor maligno) em ratos e humanos. Estudos do (-)-a-Bisabolol como fungicida o indicaram como o fungicida do futuro. Provavelmente devido às dificuldades de trabalhar com a estrutura química deste composto, a literatura consultada é muito pobre sobre modificações do (-)-a-Bisabolol. A reação proposta deve ocorrer nas duas duplas ligações do (-)-a-Bisabolol, formando assim o diclorocarbeno. A ideia de modificá-la desta forma se baseia no fato de obtermos um produto mais reativo que nosso reagente de partida. Para essa etapa do trabalho reagiu-se 4,4 mmol de Bisabolol, 0,044 mmol de N-Cetil-N,N,N-Trimetil Amônio e 27 mmol de clorofórmio, a mistura foi homogeneizada por 10 minutos sob vigorosa agitação. Então foram adicionados, gota a gota, 44,4 mmol de solução de hidróxido de sódio a 50%, concluída a adição a reação foi aquecida a 50°C, e mantida sob agitação por mais duas horas. Terminado esse tempo, a temperatura foi reduzia à temperatura ambiente e adicionou-se 50ml de solução de ácido sulfúrico a 10% a fim de tornar o meio ácido. A extração é realizada com 50ml de diclorometano. A camada orgânica foi lavada com água e seca com sulfato de sódio anidro. O solvente foi evaporado, sob vácuo, em evaporador rotativo. A reação foi monitorada por CCF utilizando cromatoplacas de sílica sobre alumínio, sendo possível ver o desaparecimento do (-)-α -Bisabolol quando revelado em vapor de iodo e em solução reveladora de sulfato cério, usando diclorometano como eluente. Obteve-se rendimento bruto de aproximadamente 99%. O diclorocarbeno purificado foi caracterizado por infravermelho e ressonância magnética nuclear de próton e carbono.


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20.9.09

A história das cem palavras

Era uma vez uma história de cem palavras. Nove dez onze, doze treze quatorze quinze dezesseis. Dezessete dezoito dezenove vinte, vinte e um vinte e dois: vinte e três vinte e quatro vinte e cinco vinte e seis vinte e sete vinte e oito. Vinte e nove trinta trinta e um trinta e dois trinta e três, trinta e quatro trinta e cinco. Trinta e seis trinta e sete trinta e oito trinta e nove quarenta! Quarenta e um. Quarenta e dois? Quarenta e três, quarenta e quatro quarenta e cinco quarenta e seis, quarenta e sete quarenta e oito.

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16.9.09

Carne humana queimada cheira a mel,
piche e batata assada.
A morte tem cheiro de abacaxi.
Um caminhão de abacaxi.

Use Polo Explorer, da Ralph Lauren --
Vaporisateur.


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A vida é uma parede.
A morte são quatro.
Je ne sais jamais l'heure.
Use Requinte Superlavável, de Sherwin-Williams.
Sem Cheiro.

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9.8.09


Sou Patricia Highsmith, o gato de Doris Lessing. Aos sete anos eu já sabia ler, escrever e contar. Aprendi por imitação. Depois da disciplina e das regras de decoro e civilidade cristã. Retrair a urina dentro d’água, por exemplo. Tudo se aprende e decora, inclusive o pensamento. Hoje sei pensar. Por imitação. Minha vida não daria oito páginas escritas à mão e trocadas por rum numa prisão de paroxítonas. Tenho um temperamento burlesco allegro e sei fazer leitura labial dos afetos humanos em seu teatro mecânico. Desde que soube que os adventistas do sétimo dia vivem nove anos mais do que os comuns, vivo em estado quase vegetativo, pois o segredo da juventude é desacelerar as mitocôndrias. Doris, ao contrário, faz longas caminhadas e toma doses diárias de resveratrol em taças transbordantes de vinho tinto. Eu não contei a ela que isto não vai adiantar, saúde não é questão de faxina do LDL. Mas também não contei muitas outras coisas, não seria natural. Ela nem imagina que, além de ler, escrever e contar, eu sei controlar meu estresse oxidativo. Uma nonagenária com inervação excitatória e a bolsa sempre repleta de comprimidos de ginkgo biloba não aceita certas coisas com facilidade. Prefiro que pense que divirto seus convidados ilustres e me contento com meus êxodos gástricos enquanto lambo minhas patas de almofada. Na verdade poucas coisas na vida me aborrecem, entre elas uma certa sensação cansativa de me ver usado como uma espécie de guia do leitor. Sempre que me deito sobre uma pilha de livros e meus olhos se perdem ao sabor do tédio nos rodapés interrompidos da sala, alguém aparece para puxar o primeiro livro da pilha e começar a ler. Não sei interpretar essa reação humana. Talvez gostem de livros mornos, receiem que eu vá babá-los ou atribuam à minha escolha casual de um livro para me recostar um oracular critério de escolha que lhes falta. É duro ser gato de escritores. Ser interpretado a cada movimento, a cada olhar. Sentada à escrivaninha, Doris olha nos meus olhos e escreve, escreve, escreve. Inspira-se na minha sonolência. Chego a pensar que é por este motivo que tanta gente hoje perdeu o gosto pela literatura. Ela faz dormir. Decerto foi por isso que criaram a expressão livro de cabeceira. Ninguém deveria confiar em escritor que tem gato. Eu não confio há um bom tempo, desde que Doris recebeu o Nobel e nem mencionou a minha participação em sua prolífica obra. Após essa decepção, em que nem vi a cor dos milhões de coroas suecas, comecei a evitar todo tipo de contato visual entre nós. Quando ela se acomoda na cadeira todas as manhãs para escrever, eu já estou de costas, fingindo interesse nas borboletas idiotas da paisagem ou roncando com meus botões. Ela então me acaricia com ternura, como se eu não soubesse de sua real intenção, remexe nos objetos sobre a mesa, tosse três vezes e demora, demora séculos para escrever uma primeira frase. E não escreve. Olha fixamente para o rabo recolhido do seu agente sentimental e ele não lhe inspira uma lembrança, uma imagem, uma associação, nem mesmo uma confissão. Nada. Um rabo sem logos. Ela suspira. Vai ser um longo dia, Doris. Douce est la vengeance.

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2.8.09

Susana Marli mora no 807 da Senador Vergueiro, fundos, e tem todos os vinis da Sylvinha Telles. Seu apartamento tem uma sala que não vamos conhecer e um quarto em que não vamos entrar porque se entrássemos veríamos que além de ter todos os discos da Sylvinha, ela também é a cara da Sylvinha. Uma cara que você não iria entender assim como Susana Marli não entende por que o samba-canção foi parar na bossa nova. Susana Marli entende por que ela foi parar no 807 da Senador Vergueiro, fundos. Ninguém precisou lhe explicar. Mas com a bossa nova é diferente. A primeira vez foi quando ela viu Sylvinha jogada na calçada sobre o plástico do camelô. O rosto encardido na capa. E julgou estar vendo a própria imagem no espelho. Amor em Hi-Fi. O seu reflexo se multiplicando, acompanhando as pedras do chão. Amor de Gente Moça. Carícia. Quem é essa mulher nesses discos velhos? Por que tem a minha cara? Por que se faz de mim? Eu não posso ficar nesse chão imundo onde todo mundo escarra. Com olhos de meio-fio. E assim começou a coleção de discos de Susana Marli no 807 da Senador Vergueiro, fundos. Andando por todas as ruas do centro da cidade e depois da zona sul a norte leste e oeste, ela não deixou um rosto de Sylvinha Telles pegando pó de asfalto em barracas, caixotes de supermercado, lonas de plástico sebentas. Tudo que tinham para vender ela comprava. Depois de meses de procura, convencida de que não havia mais um único vinil de Sylvinha sendo vendido nas ruas do Rio de Janeiro, Susana Marli sossegou nos fundos do 807 da Senador Vergueiro e começou a ouvir boleros, sambas-canção e bossa nova. Umas músicas estranhas que a arranhavam entre dois mundos, porque não era isso que toda gente costumava cantar ou que ouvia na televisão. Ela mesma não se importava com música, coisa boba que passa. Trocava de canal sempre que a cantoria começava. Mas com Sylvinha foi diferente. Foi a noite. Foi o mar. Sylvinha parecia tanto com ela que Susana Marli começou a se vestir como Sylvinha. Se pentear como Sylvinha. Deixar crescer as sobrancelhas de Sylvinha. E no final de todas as faixas já estava cantando como Sylvinha. Ninguém ergueu os olhos quando Susana Marli entrou na Biblioteca Nacional e pediu para ler os jornais cariocas dos anos 50 e 60. Ali estava ela, nas fotos dos jornais. Fui eu, eu sei. A normalista, a assistente de palhaço, o amendoim torradinho. Sylvinha Telles sou eu. Eu fiz mal em fugir. Eu fiz mal em sair. Do que eu tinha em você. Hoje eu volto vencida. A pedir pra ficar. Meu lugar é aqui. Faz de conta que eu nunca saí.


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16.7.09

#chorando no prato do mar
o poeta põe a cabeça no meu ombro
e jura que nunca mais trará
seu caderninho para a praia

escrever lhe dá a ilusão
de que o mundo não existe

é duro ele me ver
fazendo torres de areia com Perrier #

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13.7.09

Aos doze anos de idade comecei a conversar com os mortos. Não foi tão difícil pois aos cinco eu já conversava com eles em pensamento. Nunca conversei com espíritos. Espíritos são Homero, Melanípedes, Sófocles, Policleto, Zêuxis. Talvez Napoleão. Para ser espírito precisa de tempo. Tempo e inteligência. E inteligência é coisa que demora. Saber ver longe sem depender dos olhos. Então os mortos são burros? Não, seria injustiça. Mortos não são burros. Têm outra inteligência. O morto é todo aquele que precisa aprender a morrer, o que por si só é uma grande qualidade, e um pesado fardo. Já os espíritos nascem sabendo. Todo espírito já nasce morto. E eterno. Por isso simpatizo com os mortos, enquanto a maioria das pessoas, mais pragmáticas, prefere falar com espíritos. Espíritos têm o dom da profecia e sempre tem um vivo com um pires na mão para o além, querendo fazer escambo. Diferente dos espíritos, mortos se permitem falar bobagens, nos importunam nas horas mais inconvenientes, em geral falam coisas que já sabemos ou o que não sabemos pela metade, pedem alguma coisa, se confundem com o inconsciente mas no fundo não passam de almas querendo aplacar a solidão, só isso. Não estão ali para revelar segredos, fazer previsões meteorológicas ou solucionar mistérios do passado. Não sabem a origem da vida nem vão puxá-lo pela mão e apresentá-lo a Deus, que Deus é sala vip de espíritos. Por vezes acho que só conversam comigo porque querem um empurrãozinho para voltar-lhes a vida. Quando minha mãe morreu, eu já conversava com os mortos há décadas sem que ela soubesse. Ela mesma nunca apareceu para conversar comigo. Suspeito de que, ao contrário do que dizem as lendas, morto não gosta de conversar com parente. Principalmente se morreu endividado. E quase todo mundo morre deixando um rabo de fora. Sinto sempre a presença deles comigo. Em meus sonhos, quando ando pelas ruas, enquanto trabalho. E se penso na minha morte, não é com os espíritos que me consolo. A eternidade é ilusão, aprendi com A. M. de Toledo, morto em 25 de outubro de 1728.


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26.5.09

Em um hotel de Chicago, no outono cheyenne, um rico criador de gado chamado Waco se embriaga, perde no pôquer e se associa a Maddox, ex-pistoleiro de olhos de mingau que deseja esquecer seu passado de fora-da-lei. Antes de a noite acabar, eles decidem partir para comprar uma boiada no México. Durante o acidentado percurso, a notável diferença de altura dos dois, em vez de plantar discórdia, os aproxima fazendo nascer uma amizade de fortes. Após cruzarem um deserto de sal, eles se perdem e vão parar em Wichita Sky, uma cidade-fantasma cercada de rochas esculpidas pela erosão e assombrada por espectros de índios sioux em sanguinária batalha contra espectros de ianques renegados. Sem saber se haviam chegado na porta do inferno ou do Texas, os dois amigos se mostram determinados a expulsar da cidade o que julgam ser uma manifestação do demônio. No entanto, pela primeira vez eles divergem dos métodos. Waco, que apostava no futuro nas alturas e acreditava que o céu sempre manda alguém, achava que deviam construir uma igreja evangélica, pois entre o bem e o mal não há acordo. Maddox, acossado pela memória e preferindo jogar todas as fichas na pacificação do passado, tentou convencer o amigo com palavras duras: "Hijo de cuatro puercos, odiar o diabo é o mesmo que odiar o deserto por não ter água. Temos de proteger os túmulos, não construir igrejas." Não houve regateio. Em meio a visões fantasmagóricas de tiroteios, lutas de machadinha, flechas de fogo, carnificinas, escalpos e árvores de enforcados, Waco construía a sua igreja com as tábuas do saloon, enquanto Maddox negociava a paz sepulcral com as almas penadas dos sioux para que retornassem a sua reserva e com as almas ianques para que voltassem à Inglaterra, terra ancestral de onde nunca deveriam ter saído. A salvação de Waco foi garantida tábua por tábua até que a madeira durasse. Em uma mesa branca no cemitério, Maddox garantiu a paz fumando em um rifle de 15 tiros com os líderes sioux e ianque. Na véspera do dia de Ação de Graças, Wichita Sky amanhece afinal livre das assombrações e as primeiras diligências e carroças voltam a circular. Waco acredita que foi a igreja que os salvou. Maddox silencia e não o desmente, pois a vida lhe ensinou o valor de uma amizade sincera e verdadeira, apesar da diferença de altura. Os dois desistem da boiada mexicana e compram um rancho bucólico no Oregon, onde fabricam uísque até o fim dos seus dias, embalados por sinfonias pastorais de caubóis-cantores entre um crepúsculo e outro. A história pode ser muito mais do que isso ou nada. Coloco a velha fotografia de volta no envelope cheirando a sabonete e deixo os dois sozinhos na bandeja do café da manhã antes de bater a porta.

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20.5.09


Estêvão quer ser meu amigo no Facebook. Não sei como me achou pois não perco perfil nessas coisas. Acho que Estêvão não tem mais essa carinha de Beach Boy porque vovó gostou dele. Não sei por que as pessoas mentem a idade, ela disse. Chico Anysio tem 90 anos e não os 78 que dizem os jornais. Eu acredito na vovó. Ela lê enciclopédias e sabe da vida de reis e rainhas. Foi o que atraiu meu avô, plantador de arroz no Sul. Fico confusa na frente do monitor e vovó me passa uma bala de tamarindo com sorriso malicioso. A vida é azeda. Estêvão é um problema que não preciso resolver.

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12.5.09




Dinorá nunca saberia quem a matou. Não saberia a que horas exatamente o assassino entrou em sua casa e esperou pelo momento certo para fazê-la exalar o último suspiro. Dinorá foi comer uma fatia de bolo na cozinha e a faca que deixou sobre a mesa em meio aos farelos cortou a sua barriga de leste a oeste. O marido dormia. As crianças dormiam. As brasas na lareira já não iluminavam a sala. Mas Dinorá era gulosa. Tinha fomes noturnas. Medo do escuro. Medo de passar fome no escuro. O assassino também provou o bolo. O perito encontrou fragmentos de glúten na arcada dentária de Dinorá, pegadas enlameadas na porta da cozinha, farelos na mesa, no chão, nos dedos da mão direita de Dinorá, no corredor e na porta da frente. O marido e os filhos de Dinorá não comeram o resto do bolo. Não comeriam nunca mais bolos no que restou de suas vidas. A polícia nunca saberia quem a matou. Dinorá foi enterrada em 28 de agosto de 1909 com uma cerimônia simples na catedral de Yorkshire, o melhor bolo de sua terra.

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6.4.09


espuma casca de ovo
perfilado de espuma

espuma injetada
anti-escaras
acoplada

espumas alveoladas
piramidais
aglomeradas
torneadas
para dublagem a fogo
à cola
para assento universal
e dias reticulados
para absorção de choques
e vibrações
spray dos dias
para fadiga dinâmica

espumas castro alves
espumas da Nasa
em forma de U
em forma de L
em forma de tubo

l'ecume des jours


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12.3.09



only

emotion

endures



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27.2.09

exercícios prepositivos acidentais


de quem eu gosto às paredes confesso

de quem eu gosto ante as paredes confesso

de quem eu gosto após as paredes confesso

de quem eu gosto até às paredes confesso

de quem eu gosto com as paredes confesso

de quem eu gosto contra as paredes confesso

de quem eu gosto das paredes confesso

de quem eu gosto desde as paredes confesso

de quem eu gosto nas paredes confesso

de quem eu gosto entre as paredes confesso

de quem eu gosto para as paredes confesso

de quem eu gosto perante as paredes confesso

de quem eu gosto pelas paredes confesso

de quem eu gosto sem as paredes confesso

de quem eu gosto sob as paredes confesso

de quem eu gosto sobre as paredes confesso

de quem eu gosto por trás das paredes confesso




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Uma breve história da literatura brasileira


Os primeiros escravos vieram ao Brasil para nos libertar do jugo de Camões. Atendendo ao apelo de Gonçalves Dias, que acabaria sucumbindo a bordo de um navio negreiro nas costas do Maranhão, o povo d'África aportou no Novo Mundo na época em que Anchieta ainda era coroinha. Apesar de virulentamente combatida pelo Grupo Mineiro numa publicação da revista Klaxon, esta tese não há como ser refutada pois a Biblioteca Nacional guarda a sete chaves inúmeros fragmentos de poemas de viagem que conseguiram ser resgatados após o naufrágio do navio em que viajava o bardo desaparecido. Relatos do padre Fernão Cardim dão conta de que Anchieta, ao presenciar o desembarque de tão formosos guerreiros africanos seminus em praias brasileiras, comentaria extasiado: "O Brasil não precisa de mutilados. Precisa de braços!" E, deixando de lado o índio que lhe segurava a bata, saiu correndo na direção dos escravos e rabiscando nas areias os seus sermões. Naquele mesmo dia mandou que se rezasse a primeira missa, esquecido de que esta já havia acontecido. Nessa época era popular entre as caboclas a Canção da Aranha, um canto peculiar que servia para animar a rapagem da mandioca e cujos versos diziam mais ou menos assim:

"Que ku, cama-cama
Que ku, catolé
Ó Zarizê
Casal que me coma
Casal que me deixe
O chinrimbê cum biá.
Cacholi-choli-cholê."

No entanto, as sinhás moças, mais influenciadas pelos cantos gregorianos e músicas sacras, preferiam entoar seus sentimentos em serões familiares nos velhos casarões. Eram os românticos já entrando na dança com seus pezinhos clássicos, mas as mãos ainda nas Sextilhas do Frei Antão. Foi quando surgiram os primeiros sinais do romance brasileiro. O moço loiro e a namoradeira, casal travesso e piegas, bem ao gosto popular, deram início aos primeiros autores, jamais imaginados antes em terras de Santo Inácio. Prevalecia nas letras pátrias a máxima de Santa Teresa d'Ávila: "Morrer de tanto não morrer." Para não agonizar, o barroco rococou-se: o amor pelas curvas de capelas imperfeitas. O sexo como um pássaro de rica plumagem. A mulher, antes oculta nas camarinhas, entra no mundo verbal. Da janela do convento, o Aleijadinho já pressentia o que viria a ser "o torvelinho de ímpeto convexo". Inês de Castro fugindo desabalada da oitava-rima. Como ninguém mais falasse no Sermão da Sexagésima, os vice-reis, por interesses mui excusos, incentivaram o Marquês do Lavradio para que fundasse o teatro brasileiro. Mas isto só aconteceria lá pelos idos de 1770, na Praça Tiradentes do que se conhece por Rio de Janeiro. João Caetano também nasceria na Praça Tiradentes, onde, por vaidade típica dos artistas, ganharia um teatro com o seu nome. Dizia-se na época que não se devia convidar para a mesma coxia João Caetano e Leonor de Mendonça. Martins Pena faleceria em Lisboa, no ano da graça de 1848, Cena IV, Ato III, deixando o palco livre para o psicologismo iaiá-garcia de Machado de Assis. Abriam-se as portas do Ateneu. O escritor romântico virou Capitu, mocinha pobre e ambiciosa. Herança que ainda perdura. Perdeu-se o condor e a literatura vestiu a mortalha de Pirajá. O jornalismo teria início com o periódico Bazar Volante, embora críticos tardios reivindiquem a posição para o Correio Mercantil. Começa a boemia de jornal e café. A rotina do escárnio. Sob os laranjais, Aluísio de Azevedo descobrir-se-ia gostando da filha da madame, a quem dedicava poemas socialistas notoriamente influenciados por Castro Alves: "A morte já começa/a martelar caixões na porta dos ateus!" Rejeitado, arranjou-se com Filomena Borges e foram morar num cortiço lá pros lados da Tijuca. O universo literário-cultural jamais voltaria a abolir o acaso sob o signo da navegação. Do jogo entre sombra e luz surge o espírito científico. A mocidade coimbrã daria lugar a uma geração poética, viçosa e galharda cheia de fervor, convicção e outros hipicilones. Mário de Andrade aprende o francês e nasce o modernismo, de parto atravessado. Darwin deixaria Deus de lado para abraçar o primeiro macaco. Desta troca de casais nasceriam por fim Édipo, o perverso polimorfo, a Dama das Camélias e Caetano Veloso.