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Postagens

Tardes

Tantas tardes limpando tipos com a ponta de um dardo.









Postagens recentes

Georg Trakl

Em um velho álbum



Tu sempre retornas, melancolia,
Ah mansidão da alma solitária.
Um dia dourado queima até o fim.

Humilde, curva-se à dor o paciente
Ressoante de harmonia e dócil loucura.
Olha! Vem caindo o crepúsculo.

A noite está de volta e geme um mortal,
E com ele sofre um outro.

Trêmula sob estrelas outonais,
A cabeça pende mais a cada ano.



( "In ein altes Stammbuch", 1913, tradução MP, 2017.)








fuzil de lua e estrela

♪♫♬
Menina do fuzil de lua e estrela
Raios de sol, no céu da cidade
Brilho da lua (oh oh oh oh), noite é bem tarde
Penso em você, fico com saudade
Manhã chegando, burgueses morrendo
Nesse espelho, que é nossa cidade
Quem é você (oh oh oh oh), qual o seu nome 
Conta pra mim, diz como eu te encontro
Mas deixa o destino, deixa o Seu Castro
Quem sabe eu te encontro, de noite no Baixo
Brilho da lua (oh oh oh oh), noite é bem tarde
Penso em você, fico com saudade






ART

the telegram

estamos bem

a faca debaixo do meu travesseiro era para você, pae
mal uma adolescente, esses braços fortes fortes
nadavam nadavam em si mesmos
a distância entre nós 
não aumenta nem diminui
vai até o mês seguinte
escola - presídio - manicômio - hospital
nunca sabemos estar dentro de qual

a mãe e eu estamos bem
comemos ovo de dia
comemos ovo de noite
aí onde você está
conte ao meu amigo 
do outro lado do mundo
que estudo até tarde
que não há o que eu não faça
que este sangue nos meus olhos
para a sua sorte
não é mais ódio
é da melhor ganja do norte







Buenas noches y vaya con Dios

Lírio Melcides é a antítese em pessoa. Sem família, esposa ou filhos, vive sozinho desde a mais tenra mancebia. No entanto, gosta de ficar entre seus pares, principalmente à noite, quando abalroa-se com escritores, artistas, professores acadêmicos, milongueiros, intelectuais e boêmios. Nessas ocasiões ele bebe vinho e fala. Apesar de não desposá-las, amou muitas mulheres. Único poeta vivo com busto no salão de jogos infantis do Esporte Clube Metropol, foi criado pela avó de parentes distantes. Orgulha-se de ter tido pais analfabetos, porque Saramago também tinha os seus. Sempre foi humilde embora altivo diante dos grandes mestres da literatura com quem se relacionou e aprendeu. Quando não gostava de um dos seus 123 manuscritos, rasgava-o sem piedade -- depois de publicá-lo. Publicou os 123. Candidatou-se 13 vezes à ABL e à vereança. Não auferiu os votos necessários. Em entrevista posterior à última tentativa, declarou que nunca mais concorreria à Académie, à vereança, a nada. Então to…

Sniper do Tempo

Quando se presta atenção no minuto
ele demora a passar
sniper do tempo
eu o espero no vento zero
no ponto T de estrangulamento
entre terra e mar
não sei onde estou
qualquer lugar é lugar do inimigo
não me distraia






Adilson

Sentada na sacada do segundo andar 
de um cabaré da terceira idade.
Av. Mem de Sá. 
Blusa vermelha desbotada.
Alça do soutien insegura.
Cabelho grisalho.
Sovaco raspado.
Cigarro aceso.
Anel de lata.
Ninguém me abohece.
Pitú de Santo Antão no copo.
Vejo o asfalto.
Vejo o Adilson.
Entram pelos meus ouvidos.
Minha querida.
Bolha no pé.
Adoro o teu porte divino. 
Tu és a criatura mais linda
que meus olhos já viram.






A cama é um novo abraço

Os vermes saíam pelas capas. 
Pelos buracos roídos no papelão. 
Não são piolhos de livros. 
Que de ventre inchado de polpa 
sobem paredes úmidas num arrasto de digestão. 
Não são traças -- a Ordem Thysanura que se esconde durante o dia. 
São maiores. 
Ancilóstomos. 
Lumbricoides. 
Eu coçava o corpo inteiro. 
Levanto e jogo uma água no rosto. 
Cubro-me de óculos. 
Estão por toda parte. 
Descendo de uma prateleira a outra. 
Trilhando lombadas. 
Saltando de dentro do miolo como fugitivos de bueiros.
Encolhendo o corpo viscoso para forçar passagem. 
Os menores, os infantes, caem ao chão. 
Não quero acender a luz do teto. 
Eu não preciso ver mais do que estava vendo. 
Viro-me à cama de onde tinha saído. 
Nada. Limpa. 
Seria uma questão de tempo. 
Passo a mão no cabelo com o pouco tato que o desespero me deixa. 
Nada. Nenhuma superfície mole e molhada. 
Eu estava seca. 
O ar frio penetra meus poros. 
Ergo os olhos e acompanho o teatro à minha frente. 
A movimentação aleatória dos protagonistas. 
Aproximei-me para tenta…

everything breathes with her

P.S.

P.S. Lembre-me de botar esse adesivo no meu fuzil.







O pátio

Eu não chamo minha filha de Hilda
Se tiro as lentes tudo embaça
E Hilda já foi

Descemos o pátio
E te apoias em mim
No que não digo
A trava estala no vão da porta
Giro o corpo e aponto

Tu te apoias no meu sangue
E o navegamos em água do mar







Essa

Essa
apertando os lábios como quem sente dor
Já sabia muito bem o significado de família
Atropelamento, suicídio de estranhos próximos, morte
Gripes constantes, garganta inflamada e febres
Rapto de crianças, empalamentos
Elevadores com portas pantográficas
Maysa, Dolores Duran e Bossa Nova
De sexo nada, de amor e beijos, sim
De sorvete de chocolate
Sonho e algodão doce
De Monteiro Lobato e gibis
Do Holocausto e campos de extermínio
De padres sebosos e uma nova capital
Da Lua e de marcianos
Do cheiro de sangue
Do cérebro quando se desfaz nos trilhos
Da loucura, não
Essa
fugia para o mar
seu único amigo e confidente






[naquela rua sobe ônibus]

naquela rua sobe ônibus
naquela rua desce carro
naquela casa soltam fogos
e desejo que morram
mas isso é com o Senhor
o Senhor que se esconde
porque deve ser propineiro
dos impérios a que favorece
eu quero ser comunista utópica
totalmente anárquica
eu quero tanta coisa
quero anne sexton nua
lendo seus poemas para mim
num motel em San Diego
enquanto tomo banho
num chuveiro entupido
e acho os versos dele 
a coisa mais linda do mundo








In memoriam

À Vivian Wyler, que entenderá. Pela corrente, viva. Água. Nada nos prenderá.
Até breve, querida. Obrigada por acreditar desde o começo. 
Fique em paz.






1 poema de Anne Sexton

O coração morto



Depois que escrevi isso, um amigo rabiscou na página, “Sim".
E eu disse comigo mesma, “Preferiria que fosse por um 
arrebatamento diferente — como Molly Bloom e seu 'e sim
eu disse sim eu quero Sim'".



Não é uma tartaruga escondida em seu pequeno casco verde. Não é uma pedra para você pegar e colocar sob sua asa negra. Não é um obsoleto vagão de metrô. Nem carvão que se possa acender. É um coração morto. E está dentro de mim. É um estranho que já foi satisfatório, abrindo e se fechando como um molusco. O que me custou ninguém pode imaginar,
psiquiatras, padres, amantes, filhos, maridos,
amigos e muito mais.
Saiu caro continuar.
Mas ele deu o troco.
Não negue!
Fico imaginando se abril poderia trazê-lo de volta à vida.
Uma tulipa? O primeiro botão?
Mas são apenas devaneios meus,
a compaixão de quem observa um cadáver. Como ele morreu?
Eu o chamei de VIL.
E disse a ele, seus poemas cheiram a vômito.
Não fiquei para ouvir a última frase.
Ele morreu na palavra VIL.
E o fez com a minha lí…

Terra Gasta

É uma terra gasta. Ela traduziu como gasta. São três minutos daqui até o sinal vermelho. Dora não está na base em Munique. Estivesse, tomaria cappuccino. Mas ali Dora pede cachaça. O químico disse que toda cachaça daquela cidade lava a gordura ingerida pelo corpo. Lava todos os males. Comia o pé de porco com as mãos. Ela o respeitava e tinha pena do porco vivo. Naquele dia almoçaram na Alameda dos Fetos. Nunca conseguiu ter uma visão botânica da paisagem. Depois se protegeram da chuva sob a colunata. Esta é uma terra gasta. Precisava entregar o material às 18 no máximo e só tinha o final pronto. Como começar para chegar até ele? Uma explosão de bomba no metrô – um falso médico à cabeceira do informante terminal – um anel inteligente que se joga no bueiro para alcançar a cidade mais próxima – não, já tinha visto recurso igual em 17 filmes pelo menos. Começar pelo fim complica. É como chegar em casa sem ter saído. Terá de lembrar dos passos que não deu para chegar até ali. Ou apelar par…

Malária

Leia aí essas coisas difíceis enquanto eu me masturbo e as gaivotas passam de aeroplano. A malária chegou na cidade, só faltam a sua família, as desculpas do seu editor e umas bombas on the rocks.   Leia aí e depois me conte de suas frases adolescentes antilicorosas enquanto o sol baixa e penduro minhas carnes nos teus livros com a separação dos teus pais. O que escreves não vale um trocado, uma canção de cabaré, uma espinha no meu peito, os bombons vagabundos que você me compra, um deus in natura. Um escritor consolidado com 500 concorrentes. Os 500 exemplares. Tenha um derrame e dedica-te à pintura. À de falar o menos possível. Imaculada Concepção. Você escreve como quem pede perdão numa técnica estética da vaidade. Uma nova leva de portugueses chega ao Brasil com 800 mil rublos e você lhes mostra o que há por perto do seu coração