18.5.18

Meio de rede



Metade da vida acabou em 2001. A outra metade em 2009. 

Hoje é um zumbi que escreve para amedrontar-se de melancolias. 

Os quadrinhos dos gibis da infância que lê antes de dormir 

não trazem-na mais de volta.  A fantasia não lhe diz. 

Para se divertir ri de piadas sem graça. 

Obseda-se com poemas. 

Se deixa os suicidas na cabeceira, tem pesadelos. 

Corta abacates com punhal de prata e os divide com os cães. 

Joga na posição meio de rede. 

Envelhece porque não se olha mais no espelho. 

Não saberia como antes entrar num bar ou repasto e conversar dez doses 

com amigos que falam como Bibi Andersson à Mesa da Paixão de Anna. 

Cassavetes lhe traz angústias indeterminadas que não pode suportar. 

Esses filmes que enfiam a faca e torcem. 

Procura trabalhar e só vê desespero nos que procuram. 

Houve fases assim antes, não adquiriu imunidade. 

Não se apressa em cavar buracos. 

Vai morar na garagem que sobrou do colapso de seus antepassados.