10.7.18

Marítima






Eu precisava da pressão do que parecia um saco de cimento para recuar o martelo e disparar. Estava magra, sem tônus, trêmula, mal erguia uma expressão no rosto. Mãos espectrais, de algas e música, de roçar leve pálpebras e apertar cordas de ar. Meu cabelo fazia peso no pescoço. Ambígua, como entreolhares de família, de conhecidos de circunstância. Escrevo a lápis. Aponto-o com canivete afiado -- anoto -- risco -- discordo -- estou exausta. Comprei a Sig há seis meses de um funcionário do fórum local. O amigo indicou-me o homem. Encontrei-o num shopping e ele me passou a encomenda dentro de uma caixa de tênis. Uma marca que nunca usei. A Sig também me era inédita. Imaginei-a menos pesada. Era antiga mas bem conservada. Confiei. Paguei o dobro do que ganhava em um mês. Não engastou direito em minha mão. Insisti. À noite não lia mais. Namorava a arma. Dormia, meus olhos se desfocando lentamente da Sig para os sonhos. Melhor que barbitúricos, orgasmo pontifício. Eu ia matar meu egoísmo. Caçá-lo em A B C e outros latentes. A vontade de matar me ama mais do que as outras. E no entanto sou fraca. Não correspondo a esse amor. Me encolho. Impotente. Contagiosa a mim mesma. Envolta na doença do espaço. Sem peso. O peso de pedir a alguém que o fizesse. Um morto não incomoda ninguém porque está só metade descoberto, a metade da memória. N. traz na cabeça um sombrero. Atravesso a praia de norte a sul e enterro a arma na areia, na posição certa para o disparo já tantas vezes testada. Cubro com toalha. N. acena de longe. N. de ânimo gentil. Tudo ignora. Apressa-se porque ama. De perto, olhando-nos, nos sentamos em cima da toalha. Todo cadeado tem seu lugar no peito. Em poucas palavras de como cato palavras, conchas e continhas sem qualquer utilidade, eu poderia revelar-lhe -- árvores, pássaros, sentimentos na madeira original. Emudeço como sei, marítima. Há muito tempo é noite. N. ergue o odre de couro e me oferece da água mais fresca e pura. A água me desce como se de tudo soubesse. Deito devagar e aliso a toalha. Puxo N. para mim e seu peso inteiro despenca no meu corpo. Imobilização e queda. É a pressão de que preciso.

Corre.